Um de meus inúmeros leitores reclamou, com alguma razão haverei de convir, sobre o excesso de tecnologia em meu blog. Atendendo a esse apelo, lançarei um trecho de um texto bem recente do Etienne La Boétie em seu "Discurso da Servidão Voluntária".
Apesar de se encaixar nos esquerdeopatas atuais, esse belo texto foi escrito na época que o planeta não conhecia ainda, essas tristes criaturas (1577 primeira edição):
"Viva a liberdade ! Vários animais morrem assim que são capturados, peixes se deixam morrer para não sobreviverem à sua liberdade natural. Outros, dos maiores aos menorzinhos, quando apanhados, resistem tanto com as unhas, os chifres, os pés e o bico que por aí demonstram ao bem que lhe roubam. Uma vez capturados, dão-nos tantos sinais aparentes do sentimento de seu infortúnio, que é bonito vê-los desde então languir em vez de viver, não se comprazendo nunca na servidão e lamentando continuamente a privação de sua liberdade.
Em suma, se todo ser que tem o sentimento de sua existencia sente o infortúnio da sujeição e procura a liberdade; se os bichos, até os criados para o serviço do homem, só podem se submeter depois de protestarem um desejo contrário- que vício infeliz pode então desnaturar tanto o homem, o único que realmente nasceu para viver livre, a ponto de fazê-lo perder a lembrança de sua primeira condição e o próprio desejo de retoma-la ?
Há três tipos de tiranos. Falo dos maus Principes. Uns possue o Reino por eleição do povo, outros pela força das armas, e os outros por sucessão da raça. Os que o adquiriram pelo direito da guerra comportam-se nele como em terra conquistada, como se bem sabe e se diz, com razão. Comumente, os que nascem reis não são melhores; nascidos e criados no seio da tirania., sugam com o leite o natural do tirano, consideram os povos a eles submetidos como seus servos hereditários; e segundo a tendência a que estão inclinados, avaros ou pródigos, se utilizam do Reino de sua própria herança.
Quanto àquele cujo poder vem do povo, parece que deveria ser mais suportável, e creio que o seria, se, desde que se visse elevado a lugar tão alto, acima de todos os outros, lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza, não tomasse a firme resolução de não descer mais.
Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos. Ora, quando eles a ele conceberam essa idéia funesta, é realmente estranho ver como superam todos os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldades. Não encontram melhor maneira de consolidar sua nova tirania senão aumentando a servidão e afastando tanto as idéias de liberdade do espírito de seus súditos que, por mais recente que seja a sua lembrança, logo ela se apaga. "
2 comentários:
Engraçado..
A descrição do rei do povo, parece demais com nosso país, não ?
Pois é Tarso, o que difere de textos como esse dos textos contemporaneos, é que os primeiros são 'eternos' e os últimos duram uma semana.
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